Práticas gerenciais e produtividade

 

Já é consenso que o principal desafio do Brasil é aumentar a sua produtividade. Em um artigo anterior argumentei que, além dos aspectos sistêmicos já amplamente discutidos, há muito o que fazer no nível de firma. Em particular, estudos têm revelado não apenas que a produtividade das empresas difere muito dentro do mesmo setor, como também cerca de 25% dessa heterogeneidade decorre de diferenças de práticas gerenciais adotadas.

Em linhas gerais, a mágica das empresas que se destacam nessas práticas é fazer com que os funcionários atuem como se fossem donos interessados no crescimento e na perenidade da organização. Há, assim, um amplo conjunto de ações complementares que parecem se relacionar com uma maior produtividade. Incluem, por exemplo, o estabelecimento de indicadores de desempenho, delegação de decisões, estímulos ao aprendizado, pagamento com base em desempenho individual, e assim por diante.

Empresas de países emergentes, como o Brasil, tendem a adotar menos essas práticas do que empresas em países com maior produtividade. Uma possível explicação é que nesses países as empresas apresentam certas características estruturais que reduzem a atratividade de adotar um conjunto mais amplo de práticas. Por exemplo, empresas com propriedade altamente concentrada tendem a centralizar mais as decisões nos seus donos, normalmente os fundadores. Havendo relutância de delegar decisões, o benefício de medir e bonificar desempenho individual se reduz, pois os funcionários terão menor motivação para fazer escolhas visando a aumentar seu rendimento. Da mesma forma, em países com educação precária, onde os funcionários são pouco qualificados, há menor propensão a delegar autoridade e a estimular a troca de conhecimento.

Estariam esses proprietários deixando dinheiro em cima da mesa? Afinal, ao treinarem seus funcionários e concordarem em dividir mais as decisões e os resultados, poderiam aumentar a eficiência e os lucros. Ao serem reconhecidos e recompensados, os funcionários aumentam o tamanho do bolo, o que é bom para os próprios donos.
A chave está em criar incentivos para os proprietários adotarem melhores práticas. Um dos aspectos destacados por pesquisadores de práticas gerenciais é a intensidade de competição. Parte importante do efeito envolve um processo em que apenas as firmas mais eficientes permanecem no mercado. Isso faz com que as empresas sobreviventes disputem mercado mais de igual para igual, o que gera uma corrida saudável de imitação de boas práticas. No Brasil, não somente os custos de entrada em mercados são altos, como também as firmas menores têm pouco incentivo para crescer e competir com as maiores. Uma das principais causas é o sistema tributário diferenciado (“simples”) que incentiva as empresas a ficarem pequenas para pagar menos impostos.

Não menos importante, há o complexo contexto trabalhista no Brasil. Ouço de vários empresários que, em vários casos, é difícil de implantar planos de avaliação e remuneração por mérito. Alguns sindicatos, embora favoráveis a esquemas de distribuição de lucros, não permitem que os empresários reconheçam de forma diferenciada os funcionários mais produtivos. Muitas vezes se exige que a distribuição seja igualitária, independentemente de quanto cada pessoa contribuiu para o resultado. Isso pode funcionar em empresas relativamente menores onde uns monitoram os outros e onde todos são igualmente treinados e produtivos, mas não necessariamente em organizações mais complexas. Todos nós já sofremos por ter tido algum colega, na escola ou na empresa, que simplesmente pegou “carona” no trabalho que fizemos. Ao serem refratários à distribuição de resultados por mérito, os sindicatos simplesmente prejudicam os melhores e mais competentes.
As sugestões não param por aqui. A ação final depende das empresas e de seus proprietários, mas será também crucial desenhar políticas inovadoras para destravar barreiras à adoção de práticas consistentes com crescimento e eficiência.

*Sérgio Lazzarini é professor titular do Insper, autor de ‘Capitalismo de laços’ e ‘Reinventing State Capitalism’.

Fonte: Estadão